O transtorno psiquiátrico é ainda mais ameaçador para mulheres e pessoas
com baixa escolaridade, indica estudo de universidade gaúcha. Vícios, como o
tabagismo, também potencializam o quadro.
Ela nunca vem só: acompanhada por outras
enfermidades, hábitos e condições sociais, a depressão contamina as relações
interpessoais e a autonomia de quem convive com ela, ecoando prejuízos sociais
e materiais que agravam a situação do paciente e de pessoas próximas a ele.
Apontada como o transtorno mental mais prevalente no mundo — a Organização
Mundial da Saúde estima que haja 350 milhões de pacientes —, a depressão
configura-se como uma das inimigas que mais atormentam a saúde humana. Como em
qualquer batalha, conhecer o oponente é fundamental. Por isso, cientistas de
todo mundo têm se empenhando em estudar e em mapear os mecanismos de ataque da
enfermidade. Um dos esforços mais recentes nesse sentido vem de pesquisadores
da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), no Rio Grande do Sul.
Eles detalham, no Journal of Affective Disorders,
a epidemiologia da doença no Brasil. Utilizando dados de mais de 60 mil pessoas
obtidos pela Pesquisa Nacional de Saúde, a equipe liderada por Tiago Munhoz
descreveu a proporção de adultos com maior risco de ter a doença mental. Os
pesquisadores avaliaram ainda quais grupos populacionais são mais vulneráveis.
Segundo os resultados, a prevalência de indivíduos com risco aumentado para a
depressão no país foi de 4,1%, o que reflete um número absoluto de 5,5 milhões
de brasileiros. Nas análises localizadas, a taxa foi maior na Região Sul (4,8%)
e menor na Norte (2,9%).
“O estudo não faz essa correlação, mas eu acredito que a má distribuição de
psiquiatras no país tenha influenciado esses resultados. Regiões em que há
pouco atendimento especializado para diagnosticar a depressão e baixo nível
educacional para que as pessoas procurem informações sobre os sintomas podem
desempenhar algum papel nesse achado”, especula a psiquiatra Helena Moura,
membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e não participante do estudo.
Conforme Helena citou, a triagem foi maior entre pessoas com menor
escolaridade. “O baixo nível educacional está associado à pior condição
socioeconômica. Assim, indivíduos nessa condição estão expostos a um conjunto
maior de fatores de risco, isto é, a uma série de agravos à saúde, incluindo a
depressão”, explica Munhoz. O líder do estudo corrobora a opinião de Helena: a
baixa escolaridade pode dificultar o entendimento de que os sintomas
depressivos são um problema de saúde, fazendo com que as pessoas, apesar das
manifestações da doença, não procurem ajuda especializada. “Pelo fato de terem
baixo nível econômico, pode ser que não tenham acesso ao tratamento adequado”.
Outros resultados confirmaram um dado bem descrito na literatura: a maior
suscetibilidade entre as mulheres de desenvolver o problema. Helena Moura
explica que a oscilação hormonal acentuada, que aparece mais nitidamente na
tensão pré-menstrual, na gravidez e na menopausa, é um fator que influencia a
maior incidência do transtorno nelas. Mas a fisiologia não pode ser
responsabilizada sozinha. “Existe também a influência do aspecto social, com
muita cobrança para a mulher, que desempenha diversas funções”, completa a
médica.
Hábitos perigosos
Além de características fisiológicas, o
comportamento pode determinar um risco aumentado de ter a doença. No caso dos
fumantes, por exemplo, é de 59%. O dado assemelha-se ao encontrado por
pesquisadores da University College London, no Reino Unido. Em março passado,
durante uma campanha antitabagismo, eles divulgaram que fumantes são 70% mais
propensos a sofrerem de depressão e ansiedade. Apesar da associação com o
tabaco, o estudo de Munhoz não detectou correlação com consumo excessivo de
bebidas alcoólicas.
“Estudos com delineamento transversal, como o nosso, não permitem avaliar a
relação de causalidade entre tabagismo e uso abusivo de álcool com a depressão.
Portanto, não podemos avaliar se a depressão prediz o uso de tabaco/álcool ou
se indivíduos que fazem uso dessas substâncias estão em maior risco para
depressão”, explica Munhoz. Mesmo assim, o pesquisador diz que a tendência é
que alcoólatras apresentem diferentes comorbidades psiquiátricas, além de uma
série de problemas de saúde geral e da adoção maior de comportamentos de risco,
como exposição a situações violentas e acidentes.
11 milhões no Brasil
O universo de brasileiros com depressão é de 11 milhões de pessoas, o dobro dos
ameaçados. O número, divulgado no fim de 2014 pelo IBGE, representava, à época
das entrevistas, em 2013, 7,6% da população com mais de 18 anos. O cenário
retratado combina com as suscetibilidades indicadas no recente estudo gaúcho.
Segundo o IBGE, por exemplo 10,9% das mulheres tinham a doença, contra 3,9% dos
homens. O estudo da UFPEL indica que elas são pelo menos duas vezes mais
propensas a terem a doença.
Pior nas cidades
Viver nos grandes centros urbanos também pode
comprometer a saúde psiquiátrica. O estudo sobre fatores que mais desencadeiam
a depressão mostra que o problema é 50% mais presente nos habitantes das
cidades. “É um dado observado em estudos internacionais. A vida nesses lugares
é corrida e estressante, e as pessoas são, sem dúvida, mais sobrecarregadas”,
complementa a psiquiatra Helena Moura.
Também conforme o estudo, as faixas etárias mais
afetadas são compostas por pessoas com 40 a 59 anos e por quem está na ponta da
pirâmide: com 80 anos ou mais. Estudos epidemiológicos conduzidos em países de
rendas baixa, média e alta, porém, trazem outros padrões, com alguns indicando
que o problema é mais frequente em jovens. E outros, em adultos e idosos.
Tiago Munhoz, líder da nova análise científica,
diz que, por enquanto, não é possível oferecer respostas objetivas sobre a
discrepância. “Do ponto de vista psicológico e populacional, poderíamos
hipotetizar que, com o aumento da idade, os indivíduos acabam se afastando do
trabalho, têm menos interações sociais com a família e os amigos, apresentam
maior número de doenças crônicas e se tornam menos independentes”, acredita o
estudioso da Universidade Federal de Pelotas.
As doenças crônicas, aliás, têm correlação com o
desenvolvimento do transtorno psiquiátrico. “Depressivos tendem a ter mais
doenças físicas, e doentes físicos, mais depressão. Sabemos hoje que diabetes,
doenças cardiovasculares e hipertensão aumentam por si o risco para o
transtorno mental. Não é só porque a pessoa deixa de trabalhar, precisa abrir
mão das coisas de que gosta e, por isso, fica deprimida”, diz Helena Moura.
Fonte: http://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2016/02/12/noticia_saudeplena,156055/mais-de-5-milhoes-de-brasileiros-e-brasileiras-tem-depressao-por-que.shtml