O
casamento ia bem. As duas filhas cresciam saudáveis. No trabalho, as coisas
estavam prosperando. Até que no final de 1995, sem motivo aparente, o
marceneiro V*, 51, começou a ouvir vozes que o mandavam mudar-se para debaixo
de uma árvore. A família demorou para convencê-lo de que ele tinha casa, esposa
e filhas para cuidar. Até que depois de horas de muita conversa, ele aceitou
sair debaixo da árvore e buscar ajuda médica.
Na clínica
psiquiátrica, aos 31 anos, V recebeu o diagnóstico. Ele é um dos 1,6 milhão de
brasileiros diagnosticados com esquizofrenia, um transtorno mental
potencialmente grave que decorre das alterações do funcionamento do cérebro e
que provoca, entre outros sintomas, a mudança da percepção da realidade.
Segundo uma pesquisa
divulgada nesta sexta-feira (9), realizada pelo Ibope a pedido da farmacêutica
Janssen, apenas metade da população que tem esquizofrenia é diagnosticada e 25%
dos pacientes com a doença recebem o tratamento em algum momento da vida. Foram
entrevistadas 2002 pessoas na pesquisa. Destas, 68% concordam
que a maioria das pessoas não deixaria uma criança aos cuidados de um indivíduo
que tivesse o transtorno.
Além disso, 20% da
população brasileira desconhece a esquizofrenia e dos 80% que a conhecem,
metade acredita que a doença incapacita uma vida normal.
Foi o que aconteceu com
a família do marceneiro. Os parentes, desinformados, achavam que ele nunca mais
ficaria bem para cuidar da família e ainda tinham medo de que ele fizesse mal
às filhas. Mas a situação foi totalmente controlada alguns dias depois, quando
ele deu início ao tratamento com medicamentos e as alucinações, os delírios e
os medos – principais sintomas da doença -- foram ficando para trás.
"Todos reconheceram que basta seguir o tratamento para que as crises nunca
mais apareçam", disse a esposa, que também não quis se identificar.
Para o psiquiatra e
professor de medicina na Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo)
Rodrigo Bressan, faltam esclarecimentos e informações adequadas sobre a doença
e grande parte da população ainda a enxerga como um tabu. "A esquizofrenia
é um diagnóstico, não uma sentença. O tratamento adequado e contínuo ainda é a
melhor forma de prevenir a progressão da doença e minimizar os sintomas,
permitindo que o paciente mantenha uma vida ativa", afirma.
"Diagnóstico
precoce e tratamento adequado e contínuo são condições fundamentais para
minimizar os impactos à qualidade de vida do paciente", completa Bressan.
Porém, vinte anos após
o início do tratamento, cansado de tomar os medicamentos, V decidiu que estava
bem e que poderia interromper o tratamento. Foi quando os sintomas voltaram.
"Eu achava que tinha alguém me perseguindo, que alguém queria me matar e
fui me esconder", relatou. V passou a noite inteira escondido dentro de um
buraco até ser achado e retomar o tratamento. Dias depois, tudo voltava ao
normal.
Hoje, vinte anos depois
do primeiro surto, V leva uma vida normal. Trabalha, sustenta a casa, tem um
casamento saudável, quatro filhos e uma neta. "Ele é a pessoa mais tranquila
que eu já conheci. Pra falar a verdade, eu nem lembro que passamos por tudo
aqui", completou a esposa.
Para V, o apoio da
família e a forma de vencer o preconceito imposto pela sociedade foram
fundamentais para sua completa estabilização. "Sei que se eu interromper o
medicamento posso voltar a ter o surto, mas tenho consciência de que não posso
parar e ponto final", comentou V. Segundo os familiares, V é uma
"pessoa sensata, calma e amorosa".
Para ele, não há
dificuldade no diagnóstico da doença. "O desafio está na demora para
buscar ajuda médica e no tratamento. O paciente e os familiares têm preconceito
e demoram para buscar ajuda psiquiátrica. Eles têm dificuldade de entender que
o transtorno é totalmente controlável", concluiu.
*V não
quis ter a identidade completamente revelada
Fonte: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2015/10/09/apenas-1-em-cada-4-esquizofrenicos-recebe-tratamento-diz-pesquisa-do-ibope.htm

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