"Como uma metrópole como São Paulo, com toda
pujança econômica, fica à mercê do 'chove-não-chove' como se fôssemos uma
sociedade primitiva? Eu conheço países e vivi em países que têm muito menos
água disponível e a água é gerida de forma que não falte", afirma com
contundência Luis Antonio Bittar Venturi, professor livre docente do
Departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo), que pesquisa o
reaproveitamento de água em países do Oriente Médio com base na dessalinização
dos oceanos e na água de reúso.
O estudioso acredita que a água é um recurso
infinito para uso humano desde que haja capacidade de tratar água de rios,
oceanos, esgotos e que seja usada de forma sustentável. Para Venturi, a culpa
pelas torneiras secas de São Paulo não é de São Pedro, mas da falta de
planejamento para priorizar investimentos no tratamento de bacias hidrográficas
poluídas, para reintegrar sistemas hídricos e evitar o desperdício de água
potável.
"Não há como falar que falta água em São
Paulo. Falta água limpa porque falta gerenciamento adequado. Não existe uma
crise hídrica natural. Mesmo sem chover ainda há muita água para abastecer a
população. Se você sobrevoar São Paulo, vai ver muitos rios e represas que
cortam a região metropolitana e que têm água suficiente para abastecer os
moradores. Poluímos o corpo hídrico e não somos capazes de limpá-lo e tratá-lo
num ritmo suficiente para abastecer a população", disse.
"São Pedro não vai
castigar"
"A água não é finita, o que é finita é a
capacidade de tratar, de distribuir. A água é o recurso mais abundante do
planeta. O que deveria ser dito nas campanhas não é que a água é um recurso
finito e por isso temos que economizar. O que deve ser dito é o seguinte:
captar, tratar e distribuir é caro, então economize". No entanto, segundo
ele o "discurso oficial sempre vai culpar a natureza para se redimir de
suas responsabilidades".
"As pessoas têm que saber que a água é
infinita, mas que pode faltar pela gestão inadequada e pelo uso irracional. Não
porque São Pedro vai castigar", afirma.
O geógrafo realizou uma pesquisa na Síria entre
2010 e 2011 em que mostrou que planejamento e tecnologia podem ser os maiores
aliados para garantir o abastecimento de água mesmo em regiões desérticas. Em
Damasco, por exemplo, as casas possuem dois tipos de encanamentos, um que
recebe água potável e outro, água de reúso. A bacia do rio Eufrates também é
usada para fornecer água à boa parte da população.
Soluções
Como a situação no Estado de São Paulo já se tornou
alarmante, o especialista aponta possíveis soluções de médio e longo prazo para
a crise:
"Como não podemos mais esperar apenas pela
despoluição dos rios, uma saída é usar as membranas filtrantes (uma tela
finíssima que serve como um imenso coador de impurezas) e alguns produtos
químicos para limpar a água de bacias poluídas. A solução a longo prazo passa
também pelo fornecimento de água de reúso para a população, que pode ser
produzida através do esgoto, com mudança na tubulação", afirma.
Mas nada disso vai adiantar se os rios paulistas
continuarem recebendo toneladas diárias de impurezas diariamente, salienta o
pesquisador. "Tem que parar com a descarga de poluição nas nascentes
paulistas. A reserva Billings ainda recebe 800 toneladas de esgoto e 500
toneladas de lixo por dia, além de receber a poluição química do rio
Tietê".
Fonte:
http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2015/09/04/nao-falta-agua-em-sao-paulo-falta-planejamento-diz-professor-da-usp.htm

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