sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Isolamento social como ameaça à saúde

A importância das relações sociais para a saúde física e psicológica vem sendo estudada há muitos anos. Abordagens teóricas e empíricas sugerem uma influência do padrão de relações sociais de um indivíduo sobre sua saúde.
Uma pesquisa recentemente publicada na revista científica American Journal of Public Health testou a hipótese desta influência utilizando metodologia científica adequada. Com o objetivo de explorar a relação entre isolamento social e mortalidade, um grupo de pesquisadores americanos analisou dados de mais de 16 mil pessoas. Foi usado um índice de relações sociais para medir o isolamento social. Neste índice são consideradas quatro variáveis:
- se a pessoa é casada; 
- contato com outras pessoas;
- participação em atividades religiosas;
- participação em atividades de clubes ou outras organizações.
Os escores variaram de 0 a 4 conforme a presença ou ausência de cada um dos quatro itens. A nota 0 representava o maior isolamento social e a nota 4 o menor isolamento social.
Os resultados demonstraram que pessoas com maior isolamento social apresentam um risco maior de mortalidade por qualquer causa, quando comparados com as pessoas de menor isolamento social. Foi observado também um gradiente no risco, com maior isolamento associado a maior risco de morte.
Além disso, este fator de risco apresentou a mesma intensidade de outros fatores de risco, tradicionalmente avaliados na clínica médica como preditores de morte prematura, dentre eles fumo e hipertensão arterial.
Além de servir como um potente marcador de saúde (comparável a fumo e hipertensão) para avaliações clínicas, por ser um fator de risco modificável, o isolamento social pode sofrer ações de prevenção, com resultados de médio e longo prazo positivos para a saúde, similares a deixar de fumar e controlar a pressão arterial.
Autor: Equipe ABC da Saúde
Referência Bibliográfica
  • - American Journal of Public Health - Published online September 12, 2013. doi: 10.2105/AJPH.2013.301261

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Bactérias intestinais e obesidade

A obesidade é uma doença associada a uma alta ingestão energética e uma das principais abordagens de seu tratamento é a restrição calórica. Muitos estudos estão em andamento sobre os mecanismos que levam algumas pessoas a desenvolver obesidade e outras não. Aspectos de estilo de vida, sócio-culturais e econômicos certamente têm uma contribuição importante. Alterações em mecanismos neuroendócrinos que atuam no circuito de recompensa no cérebro, o que leva a caracterizar a obesidade como um tipo de adição, também têm sido propostas como fator associado à obesidade.
Recentemente tem surgido uma nova perspectiva de compreensão dos mecanismos que levam à obesidade. Essa nova abordagem está vinculada às recentes descobertas indicando uma grande quantidade e diversidade na composição dos microrganismos que habitam o organismo humano. Os resultados de um projeto internacional (Human Microbiome Project Consortium) que visa caracterizar o “segundo genoma humano” – chamado de microbioma humano – demonstram que este microbioma consiste em mais de 10.000 espécies de micróbios, abrangendo 8 milhões de genes microbianos. Estima-se que em uma pessoa pesando 90 kg, de 3 a 6 kg sejam micróbios, a maior parte deles coexistindo saudavelmente com os humanos e resultando em benefícios mútuos.
Pois parte dessas bactérias habitam o sistema digestivo e parecem influenciar o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade. Pessoas que têm maior facilidade de engordar apresentam em seu trato intestinal um maior nível de certas espécies de bactérias quando comparados com indivíduos magros. O intestino, sendo o órgão onde o alimento é processado e absorvido, desempenha um papel crucial no ganho e na perda de peso.
Além disso, os dados também sugerem que o tipo de alimento influencia decisivamente o padrão do microbioma intestinal. Dessa forma, a dieta ocidental vigente, com alto conteúdo de gordura saturada, carboidratos simples e alimentos refinados, colaboraria para o desenvolvimento de um microbioma intestinal que predispõe à obesidade, enquanto os alimentos integrais e ricos em fibras favoreceriam o microbioma contrário à obesidade.
Mesmo que não se saibam os mecanismos exatos pelos quais estas bactérias regulam a absorção energética, estes resultados indicam uma complexa interação entre o ser humano e a natureza, incluindo, além dos conhecidos ecossistemas externos, um novo e inexplorado ecossistema interno.
Autor: Equipe ABC da Saúde
Referência Bibliográfica
  • - Science 341, (2013); 6 SEPTEMBER 2013 - DOI: 10.1126/science.1241214
  • - Nature - 29 AUGUST 2013 | VOL 500; 585
  • - Nature - 14 JUNE 2012 | VOL 486; 223

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Acupuntura pode auxiliar no tratamento da depressão

Depressão é uma doença que afeta um grande número de pessoas de todas as idades no mundo todo. As principais manifestações da doença são relacionadas a alterações do humor, podendo a pessoa apresentar uma série de sintomas em diferentes intensidades. Caracteriza-se por uma sensação de desânimo (disforia) na maior parte dos dias, normalmente acompanhada por um sofrimento mental e uma incapacidade de sentir prazer (anedonia), com uma perda de interesse generalizada pelas coisas. Alguns dos sintomas mais comuns podem ser a irritabilidade, problemas de sono (insônia ou dormir demais), alterações do apetite (ganho ou perda de peso), cansaço e falta de energia, dificuldades de concentração, sensação de culpa, desesperança, baixa autoestima, pensamentos repetidos de morte ou suicídio.
A depressão pode ser tratada com medicamentos e/ou psicoterapia. Alguns aspectos relacionados ao estilo de vida podem contribuir para o tratamento, como exercícios físicos regulares, alimentação adequada e evitar álcool e drogas. Uma abordagem que pode ser complementar ao tratamento é a acupuntura, porém, estudos prévios com o uso da acupuntura foram inconclusivos devido a limitações metodológicas.
Pois no final de setembro foi publicada uma nova pesquisa na revista científica PLOS Medicine, mais consistente e que supera as limitações metodológicas anteriores. Trata-se de um ensaio clínico randomizado que comparou:
· acupuntura + cuidado padrão
· psicoterapia + cuidado padrão
· cuidado padrão exclusivamente
em pacientes com depressão. Os que receberam acupuntura e psicoterapia continuaram recebendo o tratamento medicamentoso usual do cuidado padrão.
Os resultados evidenciam que tanto a acupuntura como a psicoterapia estão independentemente associadas a uma redução dos sintomas de depressão a curto e médio prazo, quando comparados com o cuidado padrão, não apresentando efeitos adversos relevantes.
Os pesquisadores salientam que estas duas alternativas terapêuticas não substituem a abordagem farmacológica convencional, sendo, no entanto, ótimos auxiliares no tratamento da depressão.
Autor: Equipe ABC da Saúde
Referência Bibliográfica
- PLOS Medicine - www.plosmedicine.org - September 2013 | Volume 10 | Issue 9 | e1001518

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Canela como suplemento alimentar pode auxiliar no controle da glicemia em diabéticos

O controle do açúcar no sangue (glicemia) é um dos principais objetivos a ser alcançado no tratamento da diabete tipo II. A glicemia elevada influencia o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, que é uma das principais complicações da diabete. As estratégias utilizadas até agora para controlar a glicemia incluem o uso de fármacos, intervenções no estilo de vida e modificações na alimentação.
Apesar de alguns estudos apontarem uma série de suplementos naturais como benéficos para o tratamento da diabete, o uso desses suplementos não é recomendado pela Associação Americana de Diabete devido à insuficiência de evidências clínicas mostrando a sua eficácia. Estudos recentes, entretanto, estão suprindo esta insuficiência. A maior parte deles tem concentrado suas atenções na canela (Cinnamomum cássia), ingrediente alimentar natural muito antigo e comum em todo o mundo.
No último mês de setembro foi publicada na revista científica Annals of Family Medicine uma pesquisa que utilizou como metodologia a metanálise, que consiste do agrupamento e análise de resultados de diferentes estudos abordando o mesmo tema. A avaliação dos resultados em grupo geralmente confere mais consistência às conclusões.
Esta metanálise agrupou 10 ensaios clínicos randomizados que comparavam grupos de pacientes diabéticos que ingeriram canela em pó ou em cápsulas versus diabéticos que não ingeriram. Em um período que variou, conforme o estudo, de 4 a 18 semanas de tratamento, os pacientes que ingeriram canela tiveram uma redução significativa da glicemia. Além disso, apresentaram uma melhora no perfil lipídico, com uma redução do colesterol total, triglicerídeos e LDL (colesterol ruim) e um aumento no HDL (colesterol bom).
Esses efeitos têm sido atribuídos ao princípio ativo da canela (cinamaldeído), que agiria em diferentes fases da regulação do principal controlador fisiológico da glicemia, o hormônio insulina, melhorando a eficiência da secreção e da ação deste hormônio nas células. A consequência dessa maior eficiência é uma redução do açúcar no sangue e uma melhora no padrão das gorduras circulantes.
Os pesquisadores salientam que o uso de 1 a 6 gramas por dia de canela (uma colher de chá contém aproximadamente 3 gramas) na alimentação pode ser um auxiliar no tratamento da diabete, sem ser, no entanto, um substituto da medicação prescrita pelo médico.
Autor: Equipe ABC da Saúde
Referência Bibliográfica
- Annals of Family Medicine 2013;452-459. doi:10.1370/afm.1517.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quando a perda de memória com a idade não representa demência

Quantos de nós, principalmente aqueles que já passaram dos 50, não experimentaram a situação de estar com um nome de pessoa ou objeto conhecido na ponta da língua e não conseguir lembrar, situação essa popularmente conhecida como “deu um branco”? Muitas vezes isto traz preocupação para as pessoas de mais idade, pois consideram esses lapsos como um sinal de declínio da memória e os associam com a possibilidade de estarem iniciando um processo de demência.
Na semana passada foi publicado online uma pesquisa na revista científica Psychological Science, onde foi conduzido um estudo para testar se esses lapsos eventuais de memória estão relacionados com um declínio da memória como um todo, o que poderia ser um sinal de início de um processo de demência.
O estudo foi realizado em 718 adultos de 18 a 99 anos. Foram feitos testes para avaliar dois tipos de lapsos de memória onde foram computados escores:
  • - o primeiro é a experiência referida pelos pesquisadores como memória “está na ponta da língua”, que é relacionada com nomes de pessoas ou objetos que o indivíduo declarava conhecer, porém não lembrava no momento (“deu um branco”);

  • - o segundo são os lapsos de memória episódica, que é relacionada à lembrança de eventos da vida do próprio indivíduo, sendo este é o tipo de avaliação frequentemente usado para o diagnostico de demência.
Foi considerado e ajustado aos resultados o fato que indivíduos mais velhos têm uma bagagem de conhecimento maior, e por isso têm mais chances de apresentar os lapsos do tipo “está na ponta da língua”.
Os resultados demonstraram que os lapsos do tipo “está na ponta da língua” são mais comuns à medida que o indivíduo envelhece, o que os deixa bastante frustrados. Entretanto, isto parece não estar associado com um problema de memória associado com uma demência iminente, já que o declínio da memória episódica não está significativamente relacionado com o aumento dos lapsos do tipo “está na ponta da língua”.
A conclusão dos pesquisadores indica que tanto o aumento dos lapsos do tipo “está na ponta da língua”, quanto o declínio da memória episódica, estão relacionados com a idade, e representam, ao menos parcialmente, fenômenos independentes.
Então, se desde ontem está na ponta da língua o nome daquele artista famoso e não conseguimos lembrar, não nos preocupemos. Segundo estes dados, isto não é um sinal de demência. É um sinal de que estamos ficando um pouco mais velhos.
Autor: Equipe ABC da Saúde
Referência Bibliográfica
- Psychological Science Online, October 8, 2013 - doi:10.1177/0956797613495881.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ar poluído provoca câncer

A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (divisão da Organização Mundial da Saúde especializada em câncer e a sigla em inglês é IARC) publicou no dia 17 de outubro um documento em que classifica oficialmente a poluição do ar como um agente carcinogênico para humanos.
Após uma ampla avaliação dos dados científicos disponíveis, um grupo de trabalho formado por pesquisadores de vários países concluiu que existem evidências suficientes comprovando que a exposição ao ar atmosférico provoca câncer de pulmão. Foram revisados milhares de estudos sobre poluição do ar que acompanharam, por décadas, populações expostas. Além disso, foram consideradas pesquisas em que animais eram expostos à poluição. Só no ano de 2010, 223 mil pessoas morreram de câncer de pulmão em todo o mundo, provocado pela poluição do ar. Além disso, a poluição está associada com o aumento do risco do câncer de bexiga.
Embora a composição dos poluentes e os níveis de exposição variem drasticamente entre diferentes locais, a conclusão do grupo de trabalho se aplica a todas as regiões do mundo. Dependendo do nível de exposição, o risco de desenvolver câncer de pulmão de quem respira ar poluído é similar ao de um fumante passivo (aquele que não fuma, mas inala constantemente fumaça de cigarro produzida por um fumante próximo).
Os estudos indicam também que nos últimos anos há um aumento crescente nos níveis de exposição à poluição, mais notado nos países de grandes populações e que experimentaram um processo recente de rápida industrialização. A avaliação não se concentrou em poluentes específicos e sim no ar que todo mundo respira nos grandes centros urbanos. As principais fontes de poluição são a combustão dos meios de transporte, produção de energia, emissões industriais, agrícolas e residenciais.
Esta classificação coloca a poluição do ar ao lado de mais de 100 substâncias que sabidamente causam câncer, como asbesto, pó de sílica, radiação ultravioleta, plutônio e cigarro. O estudo conclui ainda, que a poluição do ar é, hoje, a principal causa ambiental de mortes por câncer.
Levando em conta que a manifestação de um câncer pode ocorrer duas, três ou mesmo, quatro décadas após o início da exposição à poluição, e, considerando a recente urbanização e industrialização, é de se esperar, para os próximos anos, um crescente aumento da incidência desta doença.
Esta perspectiva sombria ressalta ainda mais a necessidade de esforços conjuntos para reduzir-se a poluição ambiental, tanto com políticas de governos, quanto com atitudes individuais, que busquem meios de vida menos agressivos ao ar ambiente.
Fontes
  • - International Agency for Research on Cancer – World Health Organization – Press Release 221.
  • - IARC Scientific Publication N° 161 – Air Pollution and Cancer

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Atividades domésticas prolongam a vida e diminuem o risco de doença cardíaca em adultos com mais de 60 anos.

O sedentarismo, que tem aumentado na época moderna, é caracterizado pelo tempo prolongado que a pessoa fica sentada com pouca contração nos grandes grupos musculares. Esta inatividade está claramente associada a um maior risco de várias doenças como diabete e doença cardíaca, assim como a uma maior mortalidade em geral. Por outro lado, é evidente a importância do exercício regular para a saúde e longevidade. Para um estilo de vida saudável, são recomendados 150 minutos por semana de atividade física moderada.
Pouco é conhecido sobre os efeitos na saúde da atividade física não intencional, aquela decorrente de atividades como arrumar a casa, jardinagem, pequenos consertos domésticos e passatempos do tipo faça você mesmo. Pois uma pesquisa, publicada por cientistas suecos na revista British Journal of Sports Medicine, demonstra claramente os benefícios produzidos por este tipo de atividade, principalmente em pessoas com mais de 60 anos. Se estima que uma pessoa possa queimar seis vezes mais energia por minuto arrumando a casa do que quando ela está sentada.
O estudo avaliou 3839 pessoas nascidas nos anos de 1937 e 1938. Quanto mais atividades domésticas a pessoa realizava durante o dia, menos tempo ela ficava sentada (por exemplo, em frente à TV ou ao computador) e vice-versa. As pessoas com mais tempo ocupado com atividades domésticas tiveram uma redução de até 30% no risco de desenvolver problemas cardiovasculares, bem como apresentaram maior longevidade.
Interessante que esta atividade física não intencional teve, sobre a saúde, um impacto semelhante ao do exercício físico regular, sendo um fator positivo independente do exercício físico regular, e essas atividades do dia-a-dia são tão importantes para a saúde quanto o exercício intencional. Por sua vez, as pessoas que somam os dois tipos de atividade, exercício regular e atividade física não intencional, apresentaram resultados ainda melhores.
Os resultados deste trabalho servem de alerta e de encorajamento para pessoas de todas as idades para que levantem do sofá e saiam da frente do computador e da TV. Vamos cozinhar, arrumar, reformar, jardinar, evitar os elevadores, máquinas e serviços terceirizados. Quanto mais fizermos as nossas coisas do dia-a-dia, melhor para nossa saúde.
Ah, e não se esqueça dos 150 minutos por semana do exercício regular. Tudo isto é de graça.
Fonte
- British Journal of Sports Medicine online October 28 - 2013; doi:10.1136/bjsports-2012-092038